domingo, 30 de janeiro de 2011

Susane

Chegou minha hora. Estou a 109 metros do chão e isso é o suficiente para causar medo. Mais um passo e quebro todas as minhas costelas, esmago minha cabeça e faço um bom estrago nessa calçada. Meus pais já me achavam louco. Agora todos acham. Alguns olham para mim e ficam com medo. Outros são debochados. Outros simplesmente não sentem importância. Eu poderia ser qualquer merda nessa vida. Poderia ficar rico, talvez famoso, talvez requisitado. Um artista, isso era o que eu queria. Desde que larguei a faculdade tenho me dedicado a isso. As últimas palavras, os últimos passos. Como é sentir o cheiro da morte? Seria como um bolo que acabou de sair do forno e está logo ali, em cima da mesa, vulnerável para olhares gulosos? Bem, já não é hora de conversa. Preciso de dois passos para trás, e você dará esses passos ou atiro, Susane.

O espaço

Sentadas numa pedra de frente para a praia, eu e Rita conversávamos. Olhávamos para o céu e contávamos estrelas. Fazíamos isso desde crianças, nunca apontei para nenhuma estrela, mas Rita apontava sempre. Hoje ela não apontou para nenhuma.
_Não é lindo como a luz da lua reflete na água?
_É sim.
_Porque está tão quieta Rita?
_Não é nada.
_Como assim? Você sempre é tão risonha, e quando contamos estrelas, você aponta sempre para as mais belas.
_Acabou o encanto Luiza. O que tivemos até hoje sempre me satisfez, mas acabou.
_Porque está me dizendo isso?
Alguma coisa cutucou os pés de Rita, era um pequeno siri, que logo entrou na areia.
_Contei para meus pais sobre nós. Eles desconfiaram da nossa amizade, e fui obrigada a contar.
_Contou o que, Rita?
_Contei sobre as noite na praia, a cabana de verão na nossa casa da praia, de quando nos pegaram na escola. Contei a eles da nossa primeira vez no seu quarto, de como você me beijou, e como eu tinha gostado disso.
_Rita, nunca tivemos nada.
_Como assim? Descobrimos isso juntas, há 3 anos. Exatamente na virada de 2005.
_Rita, estamos em 2003.

Roberto

Tudo o que precisava era de uma xícara de café. Saí do sofá e desliguei a televisão, calcei meus sapatos e fui até a padaria. Sentei na primeira mesa que vi, pedi umas torradas, uma média de café com leite e um jornal. Tudo parecia correr muito bem, até um senhor entrar na padaria, enfiar um revólver na cara do caixa e pedir toda a grana da registradora. O rapaz do caixa suava frio, e tremendo, deu todo o dinheiro que conseguiu pegar. Aquele senhor, o do revólver, saiu correndo da padaria e entrou num Corvette preto, cantou pneu na partida, e foi perdido de vista em alguns segundos.
Fui até o caixa, olhei pra cara do rapaz que ainda suava, paguei minha conta sem exigir troco e fui pra casa. Tirei meus sapatos na porta, sentei no sofá, e tudo o que eu queria naquele exato momento era uma xícara de café.

Amanda

Falei que precisava matá-la e a matei. Ela parecia estar dormindo como um anjo se não fosse o banho de sangue que a encobria e corria piso abaixo até a banheira. Mamãe não acreditaria no que fiz com minha irmãzinha. E nem vai acreditar, melhor limpar essa bagunça antes que alguém veja o que aconteceu.

Romélia


Sempre amei minhas duas filhas. Ane e Nastácia eram como bonecas, esculpidas por cuidadosas mãos de um artesão. Ane chegava todo dia do colégio às 11h45, tomava banho e almoçava. Nastácia passará a interessar-se recentemente por promoções em que diz respeito a concertos e shows de algumas bandas do norte. Acho que para a idade dela, poderia se interessar talvez nos estudos, em pensar no que iria prestar vestibular.
Minha esposa faleceu há 10 anos. Era uma ótima jornalista, uma mãe exemplar e fodia muito bem. Perdi a conta das posições que experimentamos durante nossa trajetória. Em todo o resto, amava aquela mulher. Seu nome era Olívia. A conheci num teatro, perto da minha casa, onde mais tarde nos encontrávamos eventualmente. Ela tinha olhos claros, verdes- e quase sugestivos -, pele clara, lábios finos e encantadores. Vestia-se sempre de maneira imprevisível. Uma combinação que me deixa (ainda) mais apaixonado. Morrera quando Ane tinha 2 anos e Nastácia 7.
Ane chegaria em casa às 11h45, como sempre, mas não chegou. Nastácia estava no quarto com algumas amigas do colégio, escutando música e falando provavelmente de sexo. Claro que para mim ela ainda era virgem, mas prefiro não pensar nesse assunto ainda. Já conversei com ela várias vezes, e por mais fácil que seja explicar o que é sexo, seria muito mais fácil se no meu lugar fosse sua mãe. Passou 15 minutos, o almoço estava pronto, Nastácia já estava na mesa, mas Ane não havia chegado em casa. Liguei para o motorista da van que traz as crianças para casa, e ele disse que uma mulher tinha pegado Ane de carro, um carro simples, disse que ela era a nova empregada da casa e tinha permissão para pegá-la as 11h45. Meu mundo parou aqui. Tudo o que passava pela minha cabeça era "Onde estará minha garotinha?". Fui para meu quarto, abri a gaveta do criado mudo ao lado da minha cama, abri o fundo falso e peguei minha RT-410, escondi entre minha cintura e fui atrás de Romélia.